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Publicado em: 01/07/2020

Exagerar, contar vantagens, tornar épico o que é banal são comportamentos humanos e tão antigos quanto a arte de contar histórias. Você retratou exatamente o que é e o que realizou no seu currículo, ou caiu na tentação desses comportamentos criando um personagem que não existe?

Nunca foi tão fácil mentir, exagerar, tornar épico o que é banal em muitas carreiras mas, aí reside o problema: nunca foi tão difícil manter a mentira longe de olhos atentos sem ser pego com as calças na mão e passar pelo constrangimento de ter o rótulo de mentiroso adicionado ao currículo. Esse é Paradoxo Linkedin criado pelo Professor Paul Von Comas da Universidade Amsterdã 3.

A hiperconectividade das redes sociais cria milhares de olhos atentos a todo tipo de minúcia que pode ser verificada e denunciada. Parece óbvio mas os escritores de ficção curriculares esquecem desse detalhe e das suas implicações. As consequências estão estampadas nas manchetes dos jornais, mas a alma humana parece ter pouca memória. Como chegamos a essa situação?

Até a década de 60 havia uma cultura de caráter: importava o que o indivíduo fazia, independente de suas ações virem a público ou não. Na cultura do caráter as aparências não importavam e o indivíduo prestava conta a si próprio sob a luz dos seus princípios e valores, esses inclementes e inflexíveis.


A partir da década de 70 passou a predominar (de forma crescente) a cultura da personalidade. Nela a aparência é muito mais importante do que a verdade. O indivíduo se preocupa com a própria imagem, como ela é construída e mantida. Presta-se conta a um eu interior utilitário, fluido e maleável, demasiadamente maleável.

Flash forward e…2020! As redes sociais deram uma turbinada gigantesca na cultura da personalidade, a tecnologia permitiu a criação de verdadeiros avatares de cada indivíduo. A cultura do caráter passou a ser um anacronismo para poucos e a arte de criar e contar histórias curriculares se espalhou como uma pandemia.

Um exemplo que ilustra a diferença de postura é a abordagem da atividade filantrópica individual. Antes o anonimato era condição para a doação, hoje as redes sociais estão abarrotadas de fotos de “doadores do bem” promovendo suas boas ações, fazendo “branding” pessoal sem a menor cerimônia nem interesse de disfarçar, porque é “cool’ ser solidário em tempos extraordinários.

Esse artigo é para lembrar que a tribo dos adeptos da cultura do caráter ainda existe, resiste silenciosamente e é fundamental para o resgate dos valores que estruturam e sustentam de verdade a sociedade.

Para os adeptos da cultura da personalidade, que tem necessidade de pintar a própria história profissional, carregando nas tintas, ou criando peças de ficção, alguns cuidados que tornarão mais difícil a detecção dos “exageros” ou pequenas fraudes.

1 – Aumente mas não invente

Se você aumentou as vendas em dez milhões de dólares e coloca que foram trinta milhões, dificilmente esse número será verificado, principalmente se a companhia não publicar balanços. Atribuir a si próprio o crédito pela criação de um produto ou desenvolvimento de um novo negócio são coisas mais passíveis de verificação.

2 – Fique longe de credenciais verificáveis

É muito tentador ter um mestrado ou um doutorado no currículo, mas as instituições sérias e relevantes disponibilizam mecanismos de verificação das credenciais emitidas por ela. Qualquer headhunter mais diligente pode descobrir rapidamente se seu título não existe.

3 – Não envolva passagens onde você teve desafetos.

Você pode ter esquecido dos seus desafetos mas eles certamente não esquecerão de você, especialmente se seu currículo brilha no Linkedin e sua nova posição aguça nele aquela pontinha de inveja; ele terá muito prazer em mostrar que você é uma fraude.

(Sérgio Cavalcanti)

CEO e fundador da Nationsoft e Mestre em Gestão pela Stanford University


PS: O Professor Paul Von Comas e a Universidade Amsterdã 3 não existem!
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