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Finanças ao seu alcance



Publicado em: 04/08/2017


Quando falamos de renda fixa, estamos basicamente olhando para a taxa de juros.

Você entra lá no site do Tesouro Direto e vê uma LTN 2023 pagando 10 por cento ao ano, e se pergunta: "Mas de onde veio esses 10 por cento? Essa taxa é alta? É baixa? É justa?”.

Parece que essa taxa nunca vai fazer sentido para você, não é mesmo? Só os engravatados devem entender…

Não!!! Hoje você vai terminar de ler esse artigo sabendo tudo sobre taxa de juros e de onde ela veio.

Todas as taxas de nossa economia (todas mesmo) são derivadas da Selic. A taxa Selic é uma taxa que vale para um empréstimo com o governo de apenas um dia de duração.

Sabendo disso, fica fácil estimar as derivações:

(1) Se você quiser pegar um empréstimo por mais de um dia, terá que estimar qual será a Selic média do período do empréstimo. Se estivermos em um ciclo de alta de juros, a taxa média será maior que a Selic. E será menor se estivermos em um período de queda de juros.

(2) Se quiser pegar um empréstimo com alguém que não seja o governo, esse agente terá que pagar uma diferença a mais pelo risco maior de crédito incorrido (dado que o governo é o devedor mais seguro do mercado). Quanto mais arriscado o devedor, maior o "spread" que ele vai pagar sobre a Selic.

Ou seja, para entender melhor todos os juros da economia, e os movimentos de alta e queda, temos que focar primeiro na evolução da Selic.

E como a Selic se move? É aí que entra o Copom.

A cada 45 dias, aproximadamente, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decide qual será a taxa Selic meta. O Copom é composto pelos membros da Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil, formada pelo presidente do BC, o economista Ilan Goldfajn, mais oito diretores.

Eles "calibram" a taxa de juros para que ela possa levar a inflação para a meta, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Recentemente, o CMN, que é formado pelo BC e os ministérios da Fazenda e do Planejamento, anunciou que a meta de inflação será de 4,25 por cento em 2019 e 4 por cento em 2020. A meta atual, de 4,5 por cento ao ano, vai vigorar até 2018.

Quando a economia está muito aquecida, a inflação acelera. Então, o BC aumenta a Selic, reduzindo a propensão das pessoas a pegar empréstimo (para investir em novos projetos), e aumentando a atratividade dos títulos de renda fixa. Tudo isso reduz o consumo, que, por sua vez, desaquece a economia, levando à queda da inflação.

Quando a economia está em recessão (como agora), o BC reduz a Selic, estimulando projetos, consumo e barateando empréstimos. Isso aquece a economia e pressiona a inflação, que nada mais é do que a alta dos preços.

O BC possui modelos econométricos que auxiliam a diretoria a entender quanto eles precisam subir ou "cair" as taxas para enquadrar a inflação na meta.

Parte da estratégia de levar a inflação para a meta é se comunicar bem com o mercado, de tal forma que os agentes entendam e cofiem no plano da autoridade monetária.

E esse, finalmente, é o meu trabalho. Eu analiso todos os documentos que o BC publica, me reúno com os diretores e tento entender exatamente aonde eles querem chegar e quando. Assim, tenho melhores chances de acertar os próximos passos da Selic.

Se eu estimo para onde vai a Selic, e sei o quanto o mercado a precifica, consigo ganhar dinheiro com renda fixa, ora concordando e ora discordando da precificação do mercado.

Não é tão fácil como eu fiz parecer agora, e eu não acerto tanto quanto gostaria. Mas o processo é esse.

No site do Banco Central, logo na capa, é possível ver qual é a taxa Selic atual.

Na última quarta-feira (26), o BC decidiu reduzir a Selic em 100 bps, levando-a de 10,25 para 9,25 por cento ao ano.

O comunicado divulgado após a decisão dizia que "para a próxima reunião, a manutenção deste ritmo dependerá da permanência das condições descritas no cenário básico do Copom e de estimativas da extensão do ciclo”.

O BC possui alguns códigos para dizer certas coisas. Por exemplo, quando ele quer falar sobre até onde a Selic vai cair, ele fala em “ciclo”. Quando quer comentar sobre o tamanho do passo de cada reunião, ele diz “ritmo”.

O que podemos ver neste trecho é que a manutenção do ritmo, ou seja, do passo de queda por reunião, dependerá da manutenção das condições nos níveis atuais. Como essa queda foi de 100 bps, manter o ritmo significa que a Selic vai cair mais 100 bps na próxima reunião.

As condições atuais que deverão ser mantidas são: recuperação moderada da atividade, cenário externo favorável e inflação benigna.

Se as condições não forem mantidas, o ritmo pode ser reduzido para, digamos, 75 bps.

Mas é importante notar que, se o BC cogita seguir no ritmo de 100 bps, é porque ele não pretende parar o corte em 8 por cento, afinal, mais um corte já levaria a Selic para 8,25 por cento. Então, poderemos ver a Selic atingir níveis de 7 e algo até o final do ano.

Como disse nas primeiras linhas, a redução da taxa Selic deve levar a uma contração de todas as taxas da economia. Tanto as taxas dos empréstimos, como as dos títulos de bancos, empresas e as do próprio governo.

Uma debênture que pagava CDI + 3 por cento quando a Selic estava em 10,25 representava um retorno de 13,25 por cento para o investidor. Com a Selic próxima de 7,5 por cento, por exemplo, esse papel passará a pagar um prêmio de 10,50 por cento apenas.

Com isso, outra novidade acontece. A despesa financeira das empresas listadas na Bolsa passa a ser menor, uma vez que muitas delas têm suas dívidas indexadas ao CDI. Com isso, o lucro delas aumenta. Com o lucro subindo, as ações também sobem, e você, investidor da Bolsa, ganha mais dinheiro.

Ou seja, o Copom e a Selic são importantes para a economia como um todo. E entender como funcionam é essencial para qualquer tipo de investidor. Não somente o investidor de renda fixa, mas também o investidor de Bolsa!
(Marília Fontes)


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